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Cinderela

Foto do escritor: Verônica Marinho
Verônica Marinho
11 de set.
10 min de leitura

Era uma vez um nobre que tomou como segunda esposa a mulher mais arrogante e presunçosa que já existiu. Suas duas filhas tinham o mesmo temperamento e se pareciam com a mãe em tudo. O marido, por sua vez, tinha uma filha de gentileza e bondade extraordinárias. Ela havia herdado essas qualidades da mãe, que tinha sido a melhor criatura do mundo.


A cerimônia de casamento mal tinha terminado, quando o humor azedo da madrasta se revelou. A madrasta não suportava a menina mais nova, cujas qualidades tornavam as filhas dela ainda mais detestáveis.


Ela a punha para fazer os serviços mais pesados da casa, como lavar a louça, varrer as escadas e esfregar o chão dos quartos da madrasta e das filhas.


A menina dormia no sótão da casa, em um colchão imprestável feito de palha, enquanto as irmãs ocupavam quartos com piso de madeira, dormiam nas camas mais gostosas e tinham espelhos em que conseguiam se ver da cabeça aos pés. A pobre menina suportava tudo com paciência e não se atrevia a reclamar com o pai, que teria simplesmente lhe dado uma bronca, pois era totalmente dominado pela esposa.


Quando terminava o trabalho, ela costumava ir até a lareira sentar-se perto dos borralhos, que são as cinzas já apagadas, mas ainda quentes; isso fez com que todos na casa a apelidassem de Gata Borralheira. Mas a segunda filha, que não era tão grosseira quanto sua irmã mais velha, chamava-a de Cinderela. Apesar dos borralhos e das roupas humildes, porém, Cinderela ainda era mil vezes mais bonita do que as duas irmãs, embora elas usassem roupas magníficas.


Acontece que o filho do Rei ia dar um baile, para o qual convidaria todas as pessoas que tivessem uma boa posição na sociedade e fossem conhecidas. Após muito se exibirem na vizinhança, as duas senhoritas receberam um convite. Ficaram exultantes e ocupadíssimas com a escolha dos melhores vestidos e penteados. Isso tudo era mais um sofrimento para a pobre Cinderela, que era quem precisava passar a ferro os trajes elegantes e repletos de pregas. Ninguém falava de nada que não fosse o estilo do que iria vestir.


- Eu - disse a mais velha - vou usar meu vestido de veludo vermelho debruado com renda.

- Eu - disse a mais nova - vou usar a saia de sempre, mas, para compensar, usarei meu manto de flores douradas e meu broche de diamante, que é dos mais valiosos.


Elas mandaram chamar um chapeleiro da mais alta categoria, para que os adornos de cabeça fossem feitos de acordo com a moda, e compraram os materiais do melhor fabricante. Elas pediram a opinião de Cinderela, que tinha um bom gosto notável. Cinderela deu as melhores dicas do mundo e até se ofereceu para lhes servir de cabeleireira, o que elas aceitaram de muito bom grado.


Enquanto ela estava ocupada fazendo o penteado das duas, elas perguntaram:


- Cinderela, você gostaria de ir ao baile?

- Ai de mim, vocês só se divertem às minhas custas! Eu não teria como ir!

- Você tem razão; todos dariam muita risada ao ver uma borralheira no baile!


Qualquer outra teria feito o cabelo das irmãs de um modo estranho e feio, menos Cinderela, que era muito gentil e bem-disposta, e os arrumou com perfeição. Durante quase dois dias, de tanta alegria, nenhuma das duas conseguiu comer. Mais de uma dúzia de espartilhos foi quebrada na tentativa de afinar a cintura delas, e ambas ficavam o tempo todo se admirando na frente do espelho. Finalmente chegou o grande dia. Elas partiram e Cinderela as acompanhou com o olhar até que sumiram na distância. Quando estavam fora do alcance de seus olhos, ela começou a chorar. Sua fada madrinha, que a viu se debulhando em lágrimas, perguntou qual era o problema.


- Eu queria tanto, eu queria tanto - e soluçava com tamanha força que não conseguia terminar a frase.

- Você queria tanto ir ao baile, não é isso?

- É, pobre de mim - confirmou Cinderela, com um suspiro.

- Bem, se você for uma boa menina, eu vou garantir que você vá - a fada madrinha levou Cinderela para o quarto e lhe disse: - Vá ao jardim e me traga uma abóbora.


Cinderela foi depressa, escolheu a mais bonita de todas e entregou para a fada, perguntando a si mesma como uma abóbora poderia tornar possível sua ida ao baile. A fada escavou o miolo da abóbora até deixar só a casca; depois agitou sua varinha de condão e a fruta imediatamente se transformou em uma formosa carruagem, toda decorada.


Em seguida, foi espiar a armadilha para camundongos, onde encontrou seis, todos vivos. Ela pediu que Cinderela levantasse a portinhola, e em cada um que correu para fora da gaiola ela deu um toque com a varinha, transformando todos, imediatamente, em belos cavalos, de modo que no fim lá estava uma fileira de lindas montarias de pelo cinza rajado.


Como a fada madrinha estava com um pouco de dificuldade para encontrar algo que pudesse transformar em um cocheiro, Cinderela falou:


- Eu vou ver se na ratoeira tem alguma coisa; se tiver um rato, vamos usar para fazer o cocheiro.

- Você tem razão - concordou a fada. - Vá ver.


Cinderela trouxe a armadilha, na qual havia três ratos grandes. A fada escolheu o que tinha a barba maior, tocou nele com a varinha, e pronto! Lá estava um cocheiro gordo, com as suíças mais peludas que alguém já viu. Então ela disse:


- Vá ao jardim e lá, atrás do regador, você vai encontrar seis lagartos; traga para mim.


Cinderela os levou em um piscar de olhos, e a fada madrinha os transformou em meia dúzia de pajens uniformizados com fardas rendadas. Eles saltaram para a parte traseira da carruagem e se acomodaram como se nunca tivessem feito outra coisa na vida. A boa fada então disse para Cinderela:


- Bem, agora você tem como chegar ao baile; você está contente?

- Sim, mas vou com estas roupas esfarrapadas e encardidas?


A fada a tocou de leve com a varinha de condão e no mesmo instante os trapos foram transformados em um vestido de ouro e prata, enfeitado de pedras preciosas. Em seguida ela lhe deu um par de sapatinhos de cristal, os mais belos do mundo. Assim arrumada, ela entrou na carruagem; mas a fada madrinha falou que o mais importante de tudo era não ficar no baile além da meia-noite, avisando que, se ela permanecesse um minuto a mais, a carruagem iria de novo virar uma abóbora; os cavalos voltariam a ser camundongos; os pajens, lagartos; e as roupas, os velhos trapos de antes. Ela prometeu à fada madrinha que não se atrasaria em sair do baile antes da meia-noite e partiu, quase fora de si de tanta alegria.


O filho do rei, que tinha sido informado sobre uma grande princesa que havia chegado e que ninguém conhecia, correu para recebê-la.


Ele lhe ofereceu a mão para que ela saísse da carruagem e a conduziu para o salão onde os convidados estavam reunidos. Imediatamente, um silêncio mortal baixou sobre todos; a dança foi interrompida e os violinistas pararam de tocar, de tão hipnotizados que ficaram com a beleza extraordinária da moça desconhecida. Não se ouvia nada além de murmúrios generalizados de "Ah, mas ela é adorável!". O próprio rei, idoso como era, não conseguia desviar os olhos, e comentou com a rainha que há muito tempo não via uma pessoa tão amável e bondosa. Todas as mulheres estavam muitíssimo ocupadas examinando o penteado dela e também o vestido, o qual elas pretendiam copiar logo no dia seguinte desde que conseguissem encontrar materiais igualmente nobres e costureiras tão espertas e capazes quanto as que tinham feito aquele.


O filho do rei primeiro a levou até o assento mais ilustre e depois a tirou para dançar. Ela bailava com tanta graça que a admiração de todos só aumentava. Uma ceia esplêndida foi servida, mas o príncipe não conseguiu comer nem uma migalha, pois estava totalmente absorto contemplando toda aquela beleza. Ela sentou ao lado das irmãs e foi muito gentil, repartindo com as duas as laranjas e os limões que o príncipe tinha lhe oferecido; as irmãs ficaram surpresas com essa delicadeza, pois a moça lhes parecia uma perfeita desconhecida.


Enquanto elas conversavam, Cinderela ouviu as badaladas do relógio indicando que eram onze horas e quarenta e cinco minutos. No mesmo instante, ela fez uma mesura aos demais convidados e foi embora o mais rápido que conseguiu. Assim que chegou em casa, foi conversar com a fada madrinha. Depois de agradecer várias vezes, falou que gostaria muito de ir ao baile de novo no dia seguinte, pois o filho do rei a havia convidado. Ela estava contando à fada tudo que tinha acontecido, quando suas irmãs bateram à porta. Cinderela abriu.


- Como vocês estão voltando tarde! - ela exclamou, bocejando, esfregando os olhos e depois se espreguiçando como se tivesse acabado de acordar, apesar de não ter sentido um pingo de sono desde que tinha ido embora da festa.

- Se você tivesse ido ao baile - uma das irmãs respondeu -, não ia achar estranho. Estava lá uma linda princesa, a princesa mais linda do mundo. Ela nos cobriu de atenção e nos deu laranjas e limões.


Cinderela estava fora de si de contentamento e perguntou às irmãs o nome da princesa, mas elas responderam que ninguém a conhecia, que o filho do rei tinha ficado bastante intrigado com isso e que daria tudo no mundo para saber quem ela era. Cinderela sorriu e falou:


- Então ela era adorável? Oue sortudas vocês são! Será que eu não poderia ver esta princesa só por um momento? Ah, pobre de mim. Senhorita Javotte, me empresta aquele vestido amarelo que você usa todo dia.

- Ah, mas é claro! - a senhorita Javotte respondeu. - Até parece que eu vou emprestar meu vestido para uma borralheira como você! Eu teria que ser louca!


Essa era exatamente a resposta que Cinderela esperava e ela ficou contente com a recusa, pois não saberia o que fazer se a irmã decidisse emprestar o vestido.


No dia seguinte, as irmãs foram de novo ao baile e Cinderela também, só que vestida de um modo ainda mais esplêndido do que na noite anterior. O filho do rei não saiu do lado dela nem parou de lhe dizer palavras agradáveis. Cinderela estava se divertindo tanto que esqueceu o aviso da fada madrinha, e quando ouviu o relógio começar a bater as doze badaladas, achava que ainda nem seriam onze horas. Ela se levantou e saiu correndo como uma gazela. O príncipe a seguiu, mas não conseguiu alcançá-la. Na pressa, ela perdeu um dos sapatinhos, que o príncipe recolheu com todo o cuidado. Cinderela chegou em casa ofegante, sem cocheiro nem pajem, e vestida com os trapos habituais, sem que nada restasse de seus belos trajes a não ser um dos sapatos, o par daquele que ela havia perdido. Os guardas do palácio foram questionados se acaso não teria passado por ali uma princesa; eles responderam que não tinham visto passar ninguém, a não ser uma pobre mocinha muito mal vestida, que tinha mais a aparência de uma camponesa do que de uma nobre.


Quando as duas irmãs chegaram do baile, Cinderela lhes perguntou se tinham se divertido tanto quanto antes e se a moça linda tinha estado presente. Elas responderam que sim, mas que ela havia partido assim que soaram as doze badaladas, e em tamanha pressa que tinha perdido um de seus adoráveis sapatinhos de cristal; que o filho do rei o havia recolhido e que pelo resto da noite não tinha feito nada além de olhar para ele; e que sem dúvida ele estava muito apaixonado pela pessoa maravilhosa a quem o pequeno calçado pertencia. As duas estavam dizendo a verdade, pois poucos dias depois o filho do rei fez com que fosse proclamado, ao som de trombetas, que ele se casaria com aquela cujo pé se encaixasse perfeitamente nele. Eles começaram tentando calçar o sapatinho em princesas, depois em duquesas e assim por diante, em todas as mulheres da corte; mas foi em vão. Depois o levaram até as duas irmãs, que fizeram a maior força para enfiar o pé nele, mas não conseguiram. Cinderela, que estava ao lado observando tudo e reconheceu o sapatinho, disse, dando risada:


- Deixe-me ver se ele não serve em mim.


As irmãs começaram a zombar e a rir dela. Mas o cavalheiro da corte que tinha recebido a missão de testar o calçado, olhando para Cinderela e constatando que ela era muito bonita, disse que era justo que seu pedido fosse atendido, pois ele recebera ordens de provar o sapatinho em todas as moças solteiras do reino, sem exceção. Ele convidou Cinderela a se sentar e, calçando o sapato no pezinho dela, viu que ele deslizava com facilidade e se encaixava com perfeição. O assombro das duas irmãs foi imenso, mas ficou ainda maior quando Cinderela tirou do bolso o par do sapatinho, e o calçou no outro pé. Nessa hora apareceu a fada madrinha, que tocou em Cinderela com a varinha de condão, e transformou suas roupas em trajes ainda mais magníficos do que os que ela havia usado antes.


As duas irmãs então a reconheceram como a linda figura que tinham visto no baile. Elas se atiraram aos pés de Cinderela e imploraram perdão por todos os maus-tratos que lhe haviam imposto.


Cinderela se levantou e as abraçou, afirmando que perdoava as duas de todo o coração, e pedindo que elas a amassem de verdade pelo resto da vida. Ela foi conduzida, vestida como estava, à presença do príncipe. Ele a achou mais encantadora do que nunca e se casou com ela poucos dias depois. Cinderela, que era tão gentil quanto bonita, deu a cada irmã um quarto no palácio e no mesmo dia casou as duas com dois grandes nobres do reino.

 

A beleza é um tesouro raro em uma mulher

E o belo ninguém se cansa de admirar,

Mas um temperamento doce é bem melhor

E valoriza mais a jovem que o desejar.

 

Essa foi a bênção derramada em Cinderela

Pela sábia fada madrinha; sua maior glória.

O resto é ouro de tolo ao qual ninguém dá trela

Essa é a moral desta pequena história.

 

Doçura e charme importam mais que o que se veste

E conquistam um coração com muito mais facilidade.

Em resumo: para ter sucesso, de tudo que se investe,

O verdadeiro presente de fada é a amabilidade.

 

Talento, coragem, juízo e honra

São qualidades que ajudam na subida

Mas os sábios dizem que para vencer na vida

Você vai sempre precisar de uma ajudinha

De alguém que te ame como uma fada madrinha.

 

Fonte:

Clássicos de todos os tempos. Charles Perrault. Traduzido por Fabio Teixeira e Karla Lima. Jandira, SP: Ciranda Cultural, 2019. Charles Perrault: 1628-1703

 
 
 

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